Paulo Vaz de Carvalho – Intervenção

Misteriosidade e Arte

Alguns casos concretos da organização do quotidiano da vida musical e da vida religiosa sugerem um esbatimento de fronteiras rígidas entre música sacra e profana, aproximando-as em alguns aspectos, seja pela sua natureza, seja pela intersecção de factores contextuais.
Por outro lado, se a música está presente em quase todas as confissões, as relação entre esta e o culto apresentam por vezes diferenças acentuadas, envolvendo diferentes graus de comprometimento do músico na função artística e religiosa.
Nesse sentido importa distinguir a música de efeito sagrado da música de expressão sagrada exclusiva do culto, daquela que exprime sentimentos religiosos fora do âmbito do culto e, por fim, daquela que assimila formas e processos religiosos para exprimir sentimentos laicos de elevação extrema.
Entre música sacra e profana importa observar a exclusividade e a partilha e migração de instrumentos e processos expressivos, funções, formas musicais, tempos e lugares de execução e escuta.
Compaginam-se nesta área— genericamente designada por música sacra – categorias profundamente diversas: música de expressão religiosa e música funcional concebida para chamamento e exortação de fiéis.
A estas distinções acrescem outras advindas das diferentes acepções de religiosidade, nascidas da fragilidade que sente quem actua em palco, lugar de avatares, crenças vulgares e superstições.