Eduardo Paz Barroso – Intervenção

Misteriosidade e Arte
A MISTERIOSA DECLINAÇÃO DAS IMAGENS NO CINEMA

Existe pelo menos uma grande coincidência entre a psicanálise o cinema: o mistério. E como a análise é fértil em coincidências, e o cinema fértil sonhos, há filmes que se confundem com a experiência da análise, criam conexões e associações, em suma, “verbalizam-se”.
A arte possui características excepcionais que lhe permitem realizar, melhor que qualquer outra forma discursiva, o pensamento do inconsciente. Vemos filmes onde o desejo se formula como uma autêntica produção do inconsciente. Filmes onde o espectador pressente o sentido latente das imagens, um sentido fascinante e violento, ao qual gostaria de aceder.
Mas não existe análise sem psicanalista, sem aquele ou aquela, que aprendeu a “voltar para o inconsciente do doente, emissor, o seu próprio inconsciente como órgão receptor”.
Jaime Milheiro fala-nos desta misteriosidade e caracteriza-a: “é o sentimento despertado pelo lado atractivo do desconhecido e pela vontade de o resolver”.
Será então possível encontrar uma estética na relação analítica? Revejam-se, entre muitos, os filmes de Hitchcock: suspense e surpresa. Mas só no fim saberemos declinar as imagens….

Filmografia

Alfred Hitchcock, Vertigo (A Mulher Que Viveu Duas Vezes), 1958 Vicente Minenelli Some Came Running (Deus sabe quanto amei), 1958
Ingmar Bergman, Lágrimas e Suspiros, 1972
Joohan Grimonprez, LOOKING FOR ALFREd , 2005

Paulo Vaz de Carvalho – Intervenção

Misteriosidade e Arte

Alguns casos concretos da organização do quotidiano da vida musical e da vida religiosa sugerem um esbatimento de fronteiras rígidas entre música sacra e profana, aproximando-as em alguns aspectos, seja pela sua natureza, seja pela intersecção de factores contextuais.
Por outro lado, se a música está presente em quase todas as confissões, as relação entre esta e o culto apresentam por vezes diferenças acentuadas, envolvendo diferentes graus de comprometimento do músico na função artística e religiosa.
Nesse sentido importa distinguir a música de efeito sagrado da música de expressão sagrada exclusiva do culto, daquela que exprime sentimentos religiosos fora do âmbito do culto e, por fim, daquela que assimila formas e processos religiosos para exprimir sentimentos laicos de elevação extrema.
Entre música sacra e profana importa observar a exclusividade e a partilha e migração de instrumentos e processos expressivos, funções, formas musicais, tempos e lugares de execução e escuta.
Compaginam-se nesta área— genericamente designada por música sacra – categorias profundamente diversas: música de expressão religiosa e música funcional concebida para chamamento e exortação de fiéis.
A estas distinções acrescem outras advindas das diferentes acepções de religiosidade, nascidas da fragilidade que sente quem actua em palco, lugar de avatares, crenças vulgares e superstições.

Richard Zimler – Intervenção

Misteriosidade e Arte

Publiquei 10 romances desde 1996. Cada romance tem apenas traços do livro que originalmente tencionava escrever. A história e os personagens desenvolvem-se de acordo com um processo que é só parcialmente consciente e que continua a ser, em grande parte, um mistério para mim.
Já ouvi outros escritores a falar deste processo pouco consciente e frequentamente surpreendente, e, por isso, presumo que faz parte da vida profissional de muitos romancistas.
Quais são algumas das pistas que nos podem desvendar, como é que este processo “mágico” funciona?

Bárbara Figueiredo – Intervenção

Misteriosidade e Relações Afectivas
O mistério que garante a nossa sobrevivência

O processo evolutivo conduziu à seleção de um reportório de comportamentos – quer no adulto, comportamentos de prestação de cuidados, quer na criança, comportamentos de vinculação – que garantem sobrevivência da criança, e assim a sobrevivência da espécie.
O modo como estes dois sistemas comportamentais se adequam um com o outro, continua a surpreender, não apenas os pais, mas também os cientistas. Não obstante, hoje saber-se que o cérebro do adulto é particularmente ativado por estímulos específicos do bebé e, em determinados momentos, está mais receptivo a esses estímulos, como durante a gravidez e o pós-parto, em consequência de mudanças hormonais que se verificam quer na mulher quer no homem. Não obstante, hoje saber-se que o cérebro do bebé está pré-determinado a responder em espelho a algumas atividades especificas que observado no adulto, permitindo por exemplo que imite o seu interlocutor.
Muito há ainda para descobrir acerca do mistério que garante a nossa sobrevivência enquanto pessoas.

Francisco Bethencourt – Intervenção

Religiões
RACISMO E RELIGIÕES

A divisão entre preconceito religioso e preconceito racista, o primeiro relativo a crença e o segundo relativo a teoria das raças, não tem base histórica. Os preconceitos religiosos estiveram sempre cruzados com preconceitos de sangue ou, se quisermos, descendência. A teoria das raças, por sua vez, não se desligou dos preconceitos religiosos que a precederam. O genocídio dos arménios no império Otomano e o genocídio dos judeus na Alemanha Nazi são dois casos evidentes de mistura entre teoria das raças e preconceitos religiosos.
Assim como eu recuso que o racismo é inato à humanidade, também recuso que a perseguição étnica seja inata às diversas religiões.
A tese é que estes preconceitos são activados por projectos políticos de monopolização de recursos económicos e sociais.

Fátima Lambert – Intervenção

Misteriosidade e Relações Afectivas

Memória + [M]Mentira + [MM]Melancolia < > Misteriosidade
Sob auspícios estéticos e desígnios artísticos configura-se a gestão identitária de sensibilidade e razão: eis um escopo prioritário que atravessa a História da Arte na Europa Ocidental, propiciando-nos a diversidade de obras e ideias que os seus autores decidiram ou manifestaram .
A proposta que se partilha – no âmbito desta mesa-redonda – presentifica o seu denominador comum na convergência da letra M. Assim, ver-se-á se, quando e quanto Memória, Mentira e Melancolia se corporalizam em imagens polissémicas… No seu protagonismo de letra partilhada, M transfigura-se e visualiza-se em iconografias transversais na história da cultura ocidental. Na acumulação de sentidos e simbologias residirá, pois, a Misteriosidade.

Carta de divulgação

O IX Coloquio “Psicanálise e Cultura” do Porto, organizado pelo Instituto de Psicanálise do Porto (Sociedade Portuguesa de Psicanálise) vai realizar-se na Fundação Eng. António de Almeida nos dias 14 e 15 de Novembro de 2014. Chamamos a vossa atenção para a enorme actualidade do tema “Misteriosidade, Religiosidade e Religiões” e será dedicado a um ilustre psicanalista português Jaime Milheiro, que desenvolveu os conceitos de misteriosidade e religiosidade, pretensamente universais, antecedendo as religiões, estas formalizadas e tendendo para o dogmatismo. A relevância do tema, a qualidade dos convidados e a já longa tradição deste evento são valores seguros para que contemos com a presença de todos.

A Comissão Organizadora