Apresentação



 NO TROPEL DOS BISONTES 

A civilização, a cidade, a cidadania, processam intermináveis caminhos. Representam a eterna luta dos humanos contra as forças brutas da natureza e contra as brutalidades de si e dos outros, tentando instituir o humanismo como património geral da humanidade. 

Haverá sempre algo por fazer, contra os ataques vindos de fora. 

Haverá sempre algo por resolver, contra os desertos vindos de dentro. 

Todas as espécies se alimentam umas das outras. Todas devoram as mais fracas, nem conhecendo outros modos. Desconhecem a culpa. 

Omitir tal facto seria omitir quem somos e donde vimos, embora nos humanos haja diferenças. Inventaram instrumentos. As organizações previnem, as medicinas cuidam, as religiões compensam, mas as suas insatisfações e fracassos enredam-nos de tal forma que muitas vezes não devoram apenas os outros: devoram-se a si mesmos. 

No tropel dos bisontes o terreno estremece. O Grande Canyon aproxima-se. No precipício jazem milhões, num aparente determinismo. Fugindo dos Apaches, incapaz de metaforizar e de simbolizar, a manada despenha-se através dos cactos. Mata-se para não morrer. 

No deserto do Arizona, é o Vale da Morte que a vida determina. 

Ruídos, complexidades, cataventos, para o Death Valley encaminham os humanos. Há sempre cumes por atingir, profundezas por discernir, narcisismos por resolver, na sua condição de existir. 

Em Maio de 68 falávamos de “Eros e Civilização” e de “O Homem Unidimensional”. Cinquenta anos depois endeusamos cientismos e perspectivamos singularidades tecnológicas. Eros já era, a interioridade faleceu, tornada tema de pé descalço. 

No tropel dos bisontes, em Silicon Valley acentuam-se cérebros isolados, cérebros monstruosos, cérebros sem pessoa, em maquinarias, ciborgues, artifícios, robóticas e tecno-profecias de eterna felicidade. 

Mas… será isso verdade? 

E as crianças Senhor… as crianças meu Santo Darwin… em nome de que mãe passarão a nascer quadradas e a tilintar pirilampos? 

E os humanos Senhor… os humanos meu Santo Freud… em nome de que pai converterão afectos e poesia em aparelhos e números? 

E os violinos Senhor… os violinos meu Santo Einstein… em nome de que ciência serão trocados por cornos de bisonte a chamar para o refeitório? 

Seremos apenas, de facto, uns cabeçudos sem história nem memória? Estaremos condenados, de facto, a apagar a Arte que nos distingue? 

Perderemos um dia, de facto, a capacidade de trabalhar com a representação mental do objecto em vez do objecto e de, nesse movimento, construir sonhos e utopias… 

… como no Vale da Morte triunfalmente se anuncia? 

JAIME MILHEIRO 

Cartaz



Comissão Organizadora



A Civilização e os seus (Des)Contentamentos

O XI Colóquio “Psicanálise e Cultura  do Porto”, organizado pelo Instituto de Psicanálise do Porto ( IFTP –  Sociedade Portuguesa de Psicanálise) realizar-se-á nos dias 9 e 10 de Novembro de 2018 na Fundação Eng. António de Almeida no Porto, com o tema “A civilização e os seus (des)contentamentos”. Este Colóquio, que organizamos desde há 20 anos no Porto sob a Direção do Dr. Jaime Milheiro (presidente Honorário), tem chamado inúmeras personalidades de diferentes áreas da cultura, cidadania e ciência para um debate com elevada qualidade de reflexões científicas, culturais e clínicas e com momentos únicos na divulgação do pensamento psicanalítico.

Iremos falar de Inteligência Artificial, Bioética, Neuropsicologia,  Literatura, Arte e muitos outros temas em diálogo com a Psicanálise

Fundação Engenheiro António de Almeida

Comissão Organizadora:

Presidente: Cláudia Milheiro
Ana Belchior Melícias
Isabel Quinta da Costa
Paula Valente
Rui Guimarães
Sofia Vilar