Cartaz
Jaime Milheiro

NO MARULHAR COMPULSIVO

das cidades subterrâneas…

 

Os seres humanos:

concedem “mistério” aos alcances que desconhecem
atribuem “sagrado” às montagens que idealizam
disputam “revelações” nos labirintos que frequentam
exaltam “sepulcros” na morte que os derrota:>

nunca considerando a “misteriosidade” originária que nisso os compromete.

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Todos os seres humanos nisso se comprometem.
Misteriosidade será o sentimento propulsivo que nesse sentido os dinamiza, num movimento que representa o antagonismo positivo do medo do desconhecido e que se torna absolutamente caracterizador da sua condição de existir.
Sendo, provavelmente, a maior benfeitoria que a evolução lhes concedeu, sem essa misteriosidade ainda estariam na savana, apenas preocupados com as garras da próxima refeição e com o sexo do próximo cio.
Inevitavelmente projectada para o exterior (“o mistério das coisas”) e para o interior (“o mistério da existência”), tal sentimento purifica-se em curiosidade, investigacionalidade, criatividade, cientificidade, religiosidade e capacidade de simbolização. Sem misteriosidade nunca existiriam magias nem religiões.

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Nascidos prematuros, por completo dependentes de quem os agasalhe, os seres humanos desde sempre integraram as suas múltiplas ansiedades nessa misteriosidade em que se envolvem. Proporcionando-lhe grandiosos volumes e transcendentes tergiversações, dela fizeram pesquisa, afirmação e maravilha, sobretudo depois de lhe haverem acrescentado o jogo das escondidas que nas cavernas tinham aprendido a exercitar. Até lhe atribuíram a chave dos seus íntimos subterrâneos, esquecidos de que estavam a auto-encenar causas e consequências.
No marulhar dos círculos concêntricos em que a partir daí passaram a rodar, à maneira da pedra que tomba no rio e recuar já nem pode, em perspectivas celestiais trataram então de consumir-se e em guerras santíssimas cuidaram de assassinar-se. Chamando virtude a tais compromissos, em nome de narcisismos de bairro e de verdades imaginárias, terá valido a pena?

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A sacralização dos sentimentos de mistério constitui a mais antiga crónica dos seres humanos. Tem constituído também uma das mais compulsivas e mortíferas práticas da cidadela onde moram.
Será inteligente prosseguir?
Olhando a História, talvez possamos concluir que os seres humanos procuram a chave do mistério das coisas e a chave do mistério da existência mas nada encontram, porque não há chave nenhuma nem mistério nenhum.
Existe apenas uma misteriosidade originária:
… em roupagens nem sempre muito recomendáveis
… “eternamente” ancorada nas ansiedades que cultivam.

Porto, Novembro de 2014                                                                        Jaime Milheiro

Comissão Organizadora

Misteriosidade, Religiosidade, Religiões

No seu prefácio ao livro de Jaime Milheiro, “A Invenção da Alma”, Eurico Figueiredo escreveu: “Jaime Milheiro desenvolve conceitos originais, como o de misteriosidade, que tal como a religiosidade, seriam universais à espécie humana na sua singularidade de estar no mundo. Mas essa misteriosidade, e essa religiosidade estimulam a curiosidade e a criatividade num sistema aberto e fluido, sistema que as religiões deformam quando o tornam fechado, dogmático e excludente.

A misteriosidade ganharia uma expressão forte na relação mãe-bebé: este “ será sempre, para a mãe, um misterioso bebé. Associada “ às ideias de morte, ela relaciona-se com o lado de lá, com as questões de apagamento e de continuidade”. Relaciona-se com a condição humana, mas não obriga a construir almas nem religiões, que apenas regidificariam e esclerosariam o que inicialmente seria flexível e humano. A ética e a moral também nascem da experiência.”

É sobre toda esta problemática que o IX Colóquio “Psicanálise e Cultura” se vai debruçar, associando neste debate psicanalistas, criativos culturais e intelectuais da área religiosa.
Que será também uma homenagem a Jaime Milheiro, que além de ensaísta,teve uma importância impar no desenvolvimento da psicanálise no Norte do país e desempenhou os mais altos cargos no campo institucional da psicanálise e da psiquiatria em Portugal.

Concedemos que as religiões marcaram indiscutivelmente grandes áreas civilizacionais, como o induísmo, islamismo, budismo e cristianismo. Mas as “religiões do livro”, como tal, judaísmo, cristianismo e islamismo, terão mais tendência a funcionar como sistemas fechados.

COMO POSSIBILITAR O DIÁLOGO ENTRE ELAS?

A Comissão Organizadora
Eurico Figueiredo (Presidente),
Cláudia Milheiro, Jorge Rolão Aguiar, Maria Jorge Morais, Paula Valente.